
Terras Raras no Brasil: o que existe debaixo dos nossos pés?
Terras raras, geologia, território e poder: uma investigação que parte da Gruta que Chora e chega à disputa estratégica do Brasil por minerais críticos.
HELENA EXPRESSA → CÉU & TERRAPOLÍTICA E SOCIEDADETRILHAS & IGREJAS
10/5/202616 min ler


Terras raras, o meridiano 45° e a Gruta que Brilha: o que o Brasil guarda debaixo dos nossos pés
Há experiências que não chegam acompanhadas de uma explicação. Elas simplesmente acontecem, interrompem por alguns segundos a maneira habitual como estamos olhando para o mundo e, depois, permanecem na memória como uma pergunta. Foi assim comigo diante da Gruta que Chora, na Praia da Sununga, em Ubatuba. Eu estava ali quando percebi um brilho avermelhado nas paredes da gruta, um vermelho neon refletido em horário noturno quando submetido a luz UV de uma pequena lanterna de bolso. Não tenho interesse em transformar essa percepção em milagre, tampouco em construir retrospectivamente uma explicação extraordinária para algo que ainda pode ser investigado por meios perfeitamente concretos. O que posso dizer é muito mais simples: eu vi aquele brilho. E aquele instante me fez olhar para a paisagem de outra maneira.
E penso que seja justamente aí que começa uma pesquisa verdadeira. Não na certeza, mas na capacidade de sustentar uma pergunta sem preenchê-la imediatamente com uma resposta conveniente. A partir daquela experiência, comecei a observar a Gruta que Chora não apenas como um lugar turístico, mas como um ponto dentro de uma paisagem geológica, histórica e geográfica muito mais ampla. A gruta está localizada na Praia da Sununga, em Ubatuba, e sua formação está relacionada ao desgaste de um costão rochoso de granito cuja história remonta a cerca de 580 milhões de anos. Estamos, portanto, diante de uma paisagem que antecede em centenas de milhões de anos a nossa presença sobre ela.
É uma constatação simples, mas que muda completamente a perspectiva. Antes de existir Ubatuba, antes de existir Brasil, antes de Portugal, antes de qualquer nome dado àquela praia, aquela matéria já estava ali. A rocha não nasceu quando foi descoberta. Nós é que chegamos depois e começamos a atribuir nomes, limites, propriedades, histórias, valores e significados a algo que já existia. Talvez essa seja uma das questões mais importantes para compreender o território brasileiro hoje: a riqueza mineral não começa no momento em que uma empresa identifica uma jazida. A jazida estava ali antes de qualquer empresa, governo ou mercado. O que muda é a nossa capacidade de reconhecê-la, extraí-la, transformá-la e atribuir-lhe valor.
E acredito que foi nesse movimento da minha experiência e pesquisa que uma outra coordenada começou a chamar minha atenção. A Gruta que Chora está próxima do meridiano 45° oeste: suas coordenadas ficam em torno de 23°30' de latitude sul e 45°08' de longitude oeste. Ela não está exatamente sobre o 45° meridiano, e faço questão de dizer isso porque a precisão geográfica importa quando queremos transformar uma intuição em investigação. O que me interessa, portanto, não é afirmar que existe uma linha misteriosa atravessando a gruta, mas observar uma faixa longitudinal em torno desse meridiano e perguntar o que aparece quando começamos a olhar para o planeta a partir dela.
Uma linha imaginária sobre uma Terra absolutamente concreta
Um meridiano é uma construção matemática. Ele não existe fisicamente sobre a superfície terrestre; não há uma marca no solo indicando que, naquele ponto, estamos exatamente sobre determinado grau de longitude. Ainda assim, os meridianos são fundamentais para que possamos representar o planeta, localizar territórios, calcular distâncias e organizar o espaço. O 45° oeste é uma dessas linhas imaginárias que, prolongada de polo a polo, atravessa o Ártico, a Groenlândia, o Atlântico, a América do Sul, o Brasil, o Oceano Austral e a Antártica.
A diferença entre a linha e o território é, para mim, intelectualmente fascinante. A linha é uma abstração; a terra é matéria. A longitude é um número; uma montanha é uma formação geológica. O mapa é uma representação; uma floresta, um rio ou uma cidade são realidades vividas. Ainda assim, dependemos dessas abstrações para conhecer o mundo. Medimos o planeta para poder navegá-lo, desenhamos fronteiras para administrá-lo, estabelecemos coordenadas para localizá-lo e produzimos mapas para decidir como nos relacionaremos com ele. O que parece apenas uma questão técnica — um meridiano, uma longitude, uma coordenada — carrega, portanto, uma história humana muito mais profunda.
E talvez seja por isso que eu prefira falar em uma faixa de investigação em torno do 45° oeste, e não em uma suposta linha de poder. A Terra não obedece às linhas que traçamos sobre os mapas. Nós é que traçamos linhas para tentar compreender uma Terra que é anterior às nossas categorias. O que procuro observar é justamente a sobreposição entre essas duas coisas: a geometria que usamos para organizar o planeta e a complexidade do território que existe antes dela.
Quando seguimos essa referência para o norte, chegamos ao Ártico e à Groenlândia; para o sul, atravessamos o Atlântico e o território sul-americano até alcançar o Oceano Austral e a Antártica. No Brasil, essa faixa se aproxima de diferentes estados e paisagens, atravessando uma parte do país na qual geografia, história, mineração e ocupação territorial se encontram de maneiras muito distintas. Não seria correto dizer que tudo o que existe nessa faixa pertence a um mesmo fenômeno. Não pertence. A investigação interessante está justamente em observar as diferenças e, ao mesmo tempo, perceber quais perguntas surgem quando colocamos esses lugares lado a lado.
Antes de desenharmos o mundo, olhávamos para o céu
Há uma razão histórica para que os meridianos me interessem também como astróloga. Antes de termos satélites, sistemas de posicionamento global e mapas digitais capazes de localizar um ponto com enorme precisão, o ser humano precisava olhar para o céu para descobrir onde estava.
A orientação terrestre nasceu, em grande medida, de uma relação entre o horizonte e os astros. O Sol, a Lua e as estrelas serviram durante milênios como referências para navegação, calendário e localização. A determinação da latitude podia ser obtida observando a altura de determinados corpos celestes; a longitude, entretanto, representava um problema muito mais difícil, porque dependia da comparação precisa de horários entre diferentes pontos da Terra. A história da longitude é, por isso, também uma história de astronomia, relojoaria, matemática e navegação.
Isso ajuda a entender algo que às vezes esquecemos: medir o mundo nunca foi uma atividade politicamente neutra. Saber onde estamos significa também saber onde começa e termina alguma coisa. Significa poder estabelecer rotas, delimitar territórios, organizar comércio, administrar colônias, planejar guerras e reivindicar soberania.
Durante séculos, diferentes países utilizaram diferentes meridianos como referência para seus mapas. A adoção internacional de Greenwich como longitude zero veio muito depois de uma longa disputa científica e cartográfica. No período das grandes navegações, Portugal e Espanha já utilizavam conhecimentos astronômicos e cartográficos para representar o espaço que estavam alcançando e disputando. O Tratado de Tordesilhas, embora não possa ser projetado retrospectivamente sobre a precisão cartográfica contemporânea, mostra como a linguagem dos meridianos já estava ligada à divisão de áreas de influência entre as coroas ibéricas.
Não estou sugerindo que os navegadores do século XVI conhecessem uma espécie de alinhamento secreto relacionado ao atual meridiano 45°. Isso seria historicamente insustentável. O que me interessa é algo mais consistente: desde muito cedo, medir o território significou também participar da disputa pelo território. O mapa nunca foi apenas uma representação passiva do mundo. Ele foi uma das ferramentas utilizadas para ocupá-lo, administrá-lo e transformá-lo.
E essa história não terminou.
A geologia devolve o território ao tempo
Quando saímos da cartografia e entramos na geologia, a escala temporal se torna quase desconcertante. Uma cidade histórica pode ter alguns séculos. Uma igreja pode ter duzentos ou trezentos anos. Uma estrada pode ter algumas décadas. Uma mina pode começar a funcionar hoje. Mas as rochas que sustentam tudo isso podem ter centenas de milhões de anos.
É essa diferença de escala que me interessa quando penso na Gruta que Chora. O costão rochoso que encontramos na Sununga não é um objeto criado para a nossa civilização. Ele é um fragmento de uma história geológica muito mais antiga, relacionada aos processos tectônicos que moldaram o território do sudeste brasileiro e à própria formação e fragmentação do Gondwana. Estudos geológicos realizados na região de Ubatuba identificam registros que ajudam a compreender eventos ocorridos centenas de milhões de anos antes da existência de qualquer sociedade humana.
Isso produz uma inversão interessante. Nós costumamos dizer que descobrimos os recursos naturais, mas talvez seja mais correto dizer que descobrimos a nossa relação com recursos que já existiam. A natureza não estava esperando pela economia para adquirir valor. O valor econômico é uma construção humana, dependente do conhecimento, da tecnologia, da necessidade e do momento histórico.
O mesmo elemento químico pode permanecer praticamente ignorado durante séculos e, de repente, tornar-se estratégico porque uma nova tecnologia passa a depender dele. O minério não mudou necessariamente. O mundo ao redor dele mudou. É exatamente isso que está acontecendo com as chamadas terras raras.
O que mudou no valor de uma pedra?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos cujas propriedades os tornaram importantes para diversas tecnologias contemporâneas. Entre eles estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais em determinadas aplicações magnéticas e presentes em cadeias que chegam a motores elétricos, sistemas de geração de energia, equipamentos eletrônicos, aplicações médicas, aeroespaciais e de defesa.
O nome, entretanto, pode nos enganar. “Terras raras” não significa simplesmente que esses elementos sejam os materiais mais escassos da Terra. A dificuldade está muitas vezes na concentração dos depósitos, na extração economicamente viável e, sobretudo, na separação e no processamento dos elementos. É justamente aí que a geologia encontra a indústria e que uma questão aparentemente mineral passa a ser uma questão tecnológica.
Por isso, chamar as terras raras de “novo ouro” é uma metáfora útil, desde que saibamos onde termina a metáfora. O ouro acumulou durante séculos um valor associado à escassez, à permanência, ao símbolo, à moeda e à reserva de riqueza. As terras raras pertencem a outra etapa da história econômica. Seu valor está diretamente relacionado à capacidade de produzir tecnologias que sustentam a economia contemporânea.
O verdadeiro patrimônio, portanto, não está apenas no minério bruto. Está na capacidade de transformá-lo.
Extrair é uma etapa. Concentrar é outra. Separar os elementos é outra. Refinar é outra. Produzir materiais intermediários é outra. Transformá-los em componentes industriais é outra. Fabricar ímãs, motores, equipamentos e sistemas tecnológicos é outra. Cada etapa acrescenta conhecimento e valor.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser simplesmente sobre mineração e passa a ser sobre soberania tecnológica.
O Brasil possui o recurso. Mas possui a cadeia?
Essa é, para mim, a pergunta que deveria acompanhar qualquer conversa séria sobre terras raras no Brasil.
Não basta perguntar quanto existe no subsolo brasileiro. É preciso perguntar quanto conhecimento existe no país para transformar aquilo que existe no subsolo em desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial.
O Brasil possui recursos expressivos de terras raras e vem entrando em uma fase nova de exploração comercial. Em Goiás, a Serra Verde opera a mina Pela Ema, em Minaçu, atualmente a única operação brasileira produtora de terras raras em escala comercial. Em setembro de 2026, a empresa americana USA Rare Earth concluiu a aquisição da Serra Verde, incorporando o ativo brasileiro a uma estratégia internacional voltada à construção de uma cadeia de terras raras fora da Ásia. A operação de Goiás tem relevância particular porque produz um concentrado contendo elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Não considero intelectualmente sério tratar uma aquisição estrangeira como automaticamente boa ou ruim. Capital estrangeiro pode significar investimento, tecnologia, mercado, infraestrutura e capacidade produtiva que talvez demorassem muito mais para se desenvolver internamente. Ao mesmo tempo, a entrada de capital internacional em setores estratégicos inevitavelmente coloca uma pergunta legítima: quem ficará com as etapas de maior valor da cadeia e onde permanecerá o conhecimento produzido por ela?
Essa pergunta tornou-se ainda mais relevante porque o Brasil acaba de criar um novo marco para minerais críticos e estratégicos. A Lei nº 15.506, sancionada em setembro de 2026, instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização desses minerais. A legislação fala expressamente em pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação mineral, desenvolvimento industrial, agregação de valor em território nacional e autonomia tecnológica. Também estabelece mecanismos de controle e acompanhamento relacionados a mudanças societárias e à participação estrangeira em ativos considerados estratégicos.
Isso é significativo porque mostra que a questão já deixou de ser apenas uma preocupação de pesquisadores ou de empresas de mineração. Ela entrou formalmente na linguagem do Estado brasileiro.
E talvez seja justamente essa a transformação mais importante: começamos a reconhecer que um mineral pode ser estratégico não apenas porque vale dinheiro, mas porque pode estar ligado à capacidade de um país produzir energia, tecnologia, defesa, infraestrutura e autonomia econômica.
A corrida internacional chegou ao subsolo brasileiro
O interesse externo não acontece no vazio. A China ocupa uma posição dominante em diferentes etapas da cadeia mundial de terras raras, especialmente no processamento e em segmentos industriais de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, Estados Unidos, Austrália e outros países procuram reduzir sua dependência de cadeias concentradas e construir fontes alternativas de fornecimento.
Nesse contexto, o território brasileiro passou a adquirir uma importância que vai muito além da exportação de minério.
Em setembro de 2026, a australiana Lynas Rare Earths anunciou a aquisição da Meteoric Resources, dona do projeto Caldeira, em Minas Gerais, em uma operação de aproximadamente R$ 3,5 bilhões. A Lynas afirmou que considera desenvolver etapas de processamento no Brasil, e a aquisição coloca o projeto brasileiro dentro da estratégia de expansão de uma das principais produtoras de terras raras fora da China.
É difícil observar a sequência desses acontecimentos sem perceber que existe uma disputa internacional em curso. Mas eu prefiro chamá-la de disputa por cadeias de valor, e não simplesmente de corrida pelas jazidas.
Porque a pergunta decisiva não é apenas quem consegue chegar primeiro à terra. É quem consegue transformar a terra em tecnologia. É quem possui os laboratórios, os processos industriais, as patentes, os equipamentos, os compradores, o financiamento e a capacidade de operar em escala. Uma jazida pode estar no Brasil e, ainda assim, uma parcela significativa do conhecimento e do valor econômico gerado a partir dela estar distribuída por outros países.
Isso não é necessariamente uma anomalia do comércio internacional. É como as cadeias globais funcionam. Mas, para um país com recursos estratégicos, é uma questão que precisa ser conscientemente negociada.
Talvez esta seja a grande disputa brasileira
Quando digo que essa é uma das grandes disputas do Brasil hoje, não estou falando de uma disputa entre esquerda e direita, nem de uma questão eleitoral. Estou falando de uma questão de Estado.
Governos mudam. Presidentes mudam. Empresas são compradas, vendidas e reorganizadas. O preço internacional dos minerais oscila. Tecnologias são substituídas. Mas a geologia permanece. Uma jazida que existe hoje continuará existindo amanhã, ainda que sua importância econômica possa mudar de acordo com as necessidades do mundo.
Por isso, talvez a pergunta mais inteligente não seja “quanto vale essa mina?”, mas “o que o Brasil consegue construir a partir dela?”.
Quanto da pesquisa será realizada aqui? Quanto da tecnologia será desenvolvida aqui? Quanto da transformação mineral permanecerá aqui? Que profissionais serão formados? Que universidades participarão? Que empresas nacionais poderão nascer ao redor dessa cadeia? Que infraestrutura será construída? Que parte da riqueza será convertida em conhecimento, indústria e desenvolvimento regional?
A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos aponta justamente nessa direção ao estabelecer como objetivos o beneficiamento, a transformação mineral, a agregação de valor no território nacional e o fortalecimento da capacidade tecnológica brasileira. A própria legislação prevê instrumentos para pesquisa, desenvolvimento e inovação e estabelece mecanismos de apoio ao adensamento produtivo e tecnológico dessas cadeias.
É uma mudança importante de perspectiva.
Um país pode ser rico em recursos naturais e continuar tecnologicamente dependente, pode exportar toneladas de minério e importar produtos sofisticados produzidos a partir daquele mesmo minério, pode possuir a matéria-prima e não possuir a tecnologia e pode possuir o território e não controlar a cadeia.
É justamente essa contradição que me interessa.
O território não é apenas uma superfície
Talvez seja aqui que minha pesquisa sobre lugares encontre a política de maneira mais direta.
Quando entro em uma igreja antiga, percorro uma trilha ou observo uma formação geológica, não consigo enxergar apenas aquilo que está diante dos meus olhos. Um lugar sempre carrega camadas. A pedra tem uma idade. A construção tem uma história. A paisagem possui uma formação. A comunidade atribui significados. O Estado estabelece leis. O mercado atribui preços. As pessoas criam memórias. E, uma mina também é um lugar.
Ela não é apenas uma reserva mineral. Está inserida em uma bacia hidrográfica, em um território habitado, em um ecossistema, em uma infraestrutura, em uma legislação ambiental, em uma economia regional e agora, cada vez mais, em uma estratégia internacional de segurança tecnológica.
Por isso, falar de mineração sem falar de território é insuficiente. Falar de território sem falar de política também é.
E falar de riqueza mineral sem falar de conhecimento talvez seja a maior lacuna de todas.
Onde a astrologia entra nessa história?
É justamente nesse ponto que alguém pode perguntar: e o que uma astróloga está fazendo no meio disso tudo?
A resposta é que não estou usando astrologia para substituir geologia, história ou ciência. Não estou dizendo que o meridiano 45° produz minério, que um planeta determina a existência de uma jazida ou que uma configuração celeste explica fisicamente o brilho que vi na gruta. Seria misturar linguagens que possuem métodos e objetos diferentes.
O que faço é outra coisa.
A astronomia me interessa porque foi uma das formas pelas quais a humanidade aprendeu a se localizar no espaço e no tempo. A cartografia me interessa porque transformou essa observação em representação do território. A geologia me interessa porque devolve ao território uma profundidade temporal que nossa vida cotidiana não consegue perceber. A política me interessa porque mostra que território e recursos nunca estão separados das relações de poder. E a astrologia, para mim, entra como uma linguagem simbólica para pensar a relação entre tempo, experiência e consciência.
Não preciso confundir essas áreas para colocá-las em diálogo.
Pelo contrário. Quanto mais eu pesquiso, mais importante se torna saber onde termina o fato e começa a interpretação. É justamente essa distinção que me permite continuar sendo astróloga sem abrir mão da pesquisa.
A astrologia não precisa provar a geologia para ter significado. E a geologia não precisa da astrologia para ser verdadeira.
São linguagens diferentes olhando para uma mesma realidade.
O código dos lugares
Foi dessa sobreposição de camadas que nasceu aquilo que venho chamando de código dos lugares.
Não se trata de um código secreto, de uma mensagem oculta ou de uma tentativa de encontrar coincidências onde elas não existem. É uma maneira de investigar o lugar como algo mais complexo do que sua aparência imediata.
Uma praia é geologia, mas também turismo, economia, memória e cultura. Uma igreja é arquitetura, mas também religião, poder, arte e história. Uma montanha é relevo, mas pode ser território tradicional, reserva ambiental, patrimônio ou área de interesse mineral. Uma coordenada é matemática, mas pode nos conduzir a uma cidade, uma paisagem, uma história ou uma pergunta.
O lugar é o encontro dessas camadas.
É por isso que o meridiano 45° me interessa. Não porque eu acredite que ele contenha uma mensagem sobrenatural, mas porque ele oferece uma maneira de atravessar o mapa e observar o que aparece quando diferentes conhecimentos são colocados em relação. A linha pode ser imaginária, mas a investigação é concreta.
A Gruta que Brilha
Volto então àquela experiência na Sununga.
Eu poderia simplesmente dizer que vi um reflexo vermelho dentro de uma gruta. Poderia procurar uma explicação óptica e encerrar a história. Poderia, no outro extremo, transformar a experiência em um fenômeno extraordinário e construir em torno dela uma narrativa que não tenho condições de demonstrar.
Nenhuma dessas alternativas me interessa completamente.
O que me interessa é o caminho que a experiência abriu.
O brilho me fez olhar para a rocha. A rocha me levou à geologia. A localização me levou às coordenadas. As coordenadas me fizeram perceber a proximidade com o 45° oeste. O meridiano me levou à história da cartografia e da navegação. A cartografia me levou à relação entre território e poder. A geologia me levou à história profunda da Terra. E a história mineral contemporânea me levou às terras raras e à disputa internacional por tecnologia.
Uma experiência particular acabou abrindo uma investigação sobre o planeta.
É isso que gosto na pesquisa: uma pergunta pode crescer sem precisar ser encerrada artificialmente.
O que existe debaixo dos nossos pés?
Talvez essa seja, no fim, a pergunta que une tudo: o que existe debaixo dos nossos pés?
Existe uma história geológica que não conseguimos enxergar, existem elementos químicos que podem se tornar fundamentais para tecnologias que ainda estão transformando a economia mundial, existem territórios que foram ocupados, nomeados e disputados por gerações, existem comunidades que vivem sobre essas paisagens, existem interesses econômicos que atravessam fronteiras, existem Estados tentando garantir segurança energética e tecnológica, existem empresas procurando novos recursos, existem pesquisadores tentando compreender a matéria e existem pessoas como eu, que entram em uma gruta por uma curiosidade e saem dela carregando uma pergunta muito maior do que aquela com que chegaram.
É por isso que não vejo as terras raras apenas como uma oportunidade de mineração. Vejo-as como um teste de maturidade para o Brasil.
O país pode simplesmente participar da economia mundial como fornecedor de matéria-prima, ou pode usar a existência desses recursos para desenvolver conhecimento, indústria, pesquisa, tecnologia e capacidade de decisão. Nenhum desses caminhos é simples. A exploração mineral envolve impactos ambientais, infraestrutura, financiamento, licenciamento, relações trabalhistas, comunidades, ciência e planejamento de longo prazo. Não existe soberania tecnológica sem responsabilidade territorial.
Mas também não existe soberania tecnológica sem conhecimento E essa é a parte que mais me interessa.
O verdadeiro patrimônio
Quando comecei a olhar para a Gruta que Chora, eu não estava procurando terras raras. Eu estava diante de uma parede de pedra iluminada de uma maneira que chamou minha atenção. A partir daquele pequeno acontecimento, comecei a percorrer uma cadeia de relações que me levou da paisagem à geologia, da geologia à cartografia, da cartografia à história, da história ao território e do território à política mineral brasileira.
A Gruta que Chora é pequena diante do planeta. O meridiano 45° é apenas uma linha imaginária. Uma jazida é apenas uma concentração mineral dentro de uma imensa história geológica. Uma cidade é apenas um ponto no mapa. E, ainda assim, cada uma dessas coisas pode abrir uma porta para compreender algo muito maior.
Hoje, quando penso nas terras raras brasileiras, a pergunta que me parece mais importante não é simplesmente quanto temos. É o que seremos capazes de fazer com aquilo que temos. Porque possuir um recurso não significa necessariamente possuir o poder que esse recurso representa, esse pode estar no conhecimento que permite encontrá-lo. E na inteligência política necessária para negociar com o mundo sem entregar, por ignorância, aquilo que poderia se transformar em autonomia.
Essa é a pergunta que o Brasil precisa fazer agora, enquanto o interesse internacional por seus minerais estratégicos cresce e novas empresas estrangeiras entram em projetos brasileiros: quem controlará não apenas a jazida, mas o conhecimento, a tecnologia e o valor que nascerão dela?
Foi assim que uma pequena luz vermelha sobre uma parede de pedra me levou a olhar para o Brasil de outra maneira. A gruta continua se chamando Gruta que Chora. Mas, para mim, naquele dia, ela também foi uma Gruta que Brilha. Como nosso Brasil.
Helena Marcondes é astróloga, escritora e pesquisadora, criadora da abordagem Eu Me Quero de Volta e da Teoria Matemática Astrológica. Seu trabalho investiga as relações entre astrologia, consciência, comportamento, símbolos e experiência humana, aproximando o céu daquilo que vivemos na Terra. Em seus textos, Helena transforma experiências, lugares e perguntas em matéria de investigação, buscando compreender o ser humano para além das respostas prontas.


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