O Bolsonarismo é uma Pandemia? Uma Reflexão sobre Política e Contágio Social

O bolsonarismo é uma pandemia? Helena Marcondes investiga, como metáfora, o contágio de ideias, emoções, identidade e polarização na política brasileira.

HELENA EXPRESSA → CÉU & TERRA

10/2/20268 min ler

O bolsonarismo é uma pandemia?

Não estou falando de vírus. Estou falando de contágio.

Há palavras que precisam ser usadas com cuidado porque carregam uma força que pode ultrapassar aquilo que pretendíamos dizer. “Pandemia” é uma delas. Depois de tudo o que vivemos nos últimos anos, sabemos que uma pandemia não é apenas a existência de um agente infeccioso; ela envolve circulação, transmissão, ambientes favoráveis, respostas coletivas, medo, informação, comportamento e consequências que ultrapassam o indivíduo. Por isso, quando me pergunto se o bolsonarismo é uma pandemia, não estou dizendo que pessoas que se identificam com Jair Bolsonaro estejam doentes, nem tentando transformar uma posição política em diagnóstico. Estou usando a palavra como metáfora para investigar outra coisa: como uma visão de mundo consegue atravessar indivíduos, famílias, igrejas, grupos sociais, redes digitais e instituições até se transformar em uma forma compartilhada de interpretar a realidade?

O próprio conceito de bolsonarismo não é consensual na literatura acadêmica. Há pesquisadores que o definem como um alinhamento ideológico e eleitoral de direita; há estudos que enfatizam seus componentes conservadores, econômicos e culturais; há trabalhos recentes que o descrevem como uma aliança discursiva de extrema-direita; e há pesquisas que procuram compreender a diversidade interna dos próprios grupos que se identificam com Bolsonaro. Em outras palavras, não existe uma única explicação capaz de encerrar o fenômeno. Essa multiplicidade de interpretações, para mim, não diminui a importância do assunto. Pelo contrário. Quando um fenômeno político produz tantas tentativas diferentes de definição, talvez estejamos diante de alguma coisa que não cabe confortavelmente dentro da categoria de “eleitorado de um candidato”.

O bolsonarismo nasceu associado a uma pessoa concreta, Jair Bolsonaro, mas sua permanência como fenômeno político não pode ser compreendida apenas pela biografia ou pelas declarações de seu principal líder. A pesquisa acadêmica tem justamente procurado investigar o que acontece quando uma liderança passa a funcionar como ponto de convergência para diferentes valores, grupos, ressentimentos, interesses e identidades. Um estudo de 2024 propõe compreender o bolsonarismo, entre outras dimensões, como uma convergência de tendências sociais, um horizonte político, uma ecologia organizacional, uma infraestrutura afetiva e uma “máquina” capaz de estimular e conter os excessos de sua própria base. É uma formulação interessante porque desloca a pergunta: em vez de perguntarmos apenas “quem é Bolsonaro?”, começamos a perguntar o que acontece em uma sociedade para que determinado discurso encontre tanta capacidade de adesão, reprodução e permanência?

É aqui que a metáfora da pandemia começa a me interessar Não pela doença, mas pelo contágio.

Uma ideia política pode circular como uma informação, mas também pode circular como emoção. Pode atravessar uma família durante o almoço, aparecer em uma conversa de igreja, transformar-se em vídeo encaminhado pelo WhatsApp, reaparecer em uma publicação nas redes sociais, entrar em uma discussão sobre segurança pública, misturar-se a uma preocupação legítima com os filhos, incorporar uma interpretação religiosa, encontrar uma memória de corrupção, transformar medo em indignação e, depois de atravessar todos esses territórios, retornar à pessoa com uma aparência completamente diferente daquela que tinha no começo.

É assim que as ideias se tornam maiores do que seus autores. E talvez seja justamente por isso que seja insuficiente combater uma visão de mundo apenas combatendo seu representante mais conhecido. Porque pessoas não se apaixonam somente por políticos, elas se apaixonam por narrativas.

Uma narrativa oferece uma maneira de organizar o caos. Ela diz quem somos, quem são os outros, o que está acontecendo, quem é responsável, quem ameaça aquilo que amamos e quem poderá nos proteger. Quanto mais complexa é a realidade, maior pode ser a atração exercida por uma explicação que transforma dezenas de problemas diferentes em uma única história. O mundo fica mais simples. Existe um “nós”. Existe um “eles”. Existe uma ameaça. Existe uma defesa. Existe uma promessa de retorno à ordem.

Esse mecanismo não pertence exclusivamente ao bolsonarismo. A política contemporânea, em diferentes países e espectros ideológicos, utiliza identidades, antagonismos, emoções e narrativas de pertencimento. A polarização brasileira também possui uma história anterior à ascensão de Bolsonaro, e estudos sobre o período democrático mostram que conflitos político-partidários já estruturavam a disputa nacional antes de 2018. O que mudou com o bolsonarismo, portanto, não pode ser reduzido à invenção da polarização. O fenômeno se desenvolveu dentro de uma história que já existia, mas reorganizou parte dela de uma maneira nova.

E talvez seja nesse ponto que devamos prestar atenção. Porque uma sociedade não se transforma simplesmente porque alguém diz determinadas palavras. Ela se transforma quando determinadas palavras encontram condições para serem ouvidas.

O discurso encontra terreno quando toca alguma coisa que já estava presente. Como o medo, o ressentimento, a desconfiança, o desejo de ordem, a sensação de abandono, a raiva das instituições, o conservadorismo religioso, a rejeição de determinadas mudanças culturais, a insatisfação econômica, a desconfiança da imprensa e da ciência, o desejo de pertencer e por aí vai.

Nada disso é propriedade exclusiva de uma pessoa. E nem todo indivíduo que compartilha uma dessas preocupações se torna bolsonarista. Pesquisas recentes, inclusive, encontraram diferentes combinações de valores morais, posições econômicas e preferências políticas dentro do próprio eleitorado identificado com Bolsonaro, questionando a ideia de que exista um bloco completamente homogêneo e intelectualmente uniforme.

Isso é importante porque o pensamento crítico começa justamente quando deixamos de transformar milhões de pessoas em uma caricatura. Se quero compreender um fenômeno, preciso ser capaz de olhar para ele sem reduzi-lo à versão mais fácil de atacar. E isso, certamente, é uma das coisas que mais nos faltem hoje.

Nós confundimos frequentemente compreender com concordar. E não são a mesma coisa.

Compreender por que uma narrativa política produz identificação não significa adotá-la. Investigar por que determinada pessoa acredita em alguma coisa não significa considerar verdadeira aquilo que ela acredita. Pelo contrário: compreender os mecanismos de uma ideia é uma das maneiras mais eficientes de analisá-la criticamente.

Foi isso que comecei a perceber quando passei a observar a política não apenas como disputa eleitoral, mas como fenômeno psicológico e cultural. Porque existe uma política que acontece nos palácios, nos parlamentos, nas urnas e nos tribunais. E existe outra que acontece dentro das pessoas.

Ela aparece quando uma conversa entre familiares deixa de ser possível porque uma opinião política passou a definir o caráter moral de quem discorda. Aparece quando um amigo deixa de ser amigo porque escolheu determinado candidato. Aparece quando uma pessoa não consegue mais ouvir uma informação sem primeiro decidir de qual “lado” ela veio. Aparece quando o mundo deixa de ser um conjunto complexo de acontecimentos e passa a ser dividido entre pessoas que “sabem a verdade” e pessoas que precisam ser combatidas.

Nesse momento, a política deixa de ser apenas uma disputa sobre projetos de sociedade. Ela começa a ocupar o território da identidade. E quando uma opinião política se transforma em identidade, qualquer questionamento pode ser experimentado como uma ameaça pessoal. Aqui acredito que seja o ponto onde o contágio se torne mais difícil de interromper, porque não estamos mais discutindo ideias. E sim, defendendo pertencimento, família, memória, o que acreditamos ser moralmente correto e, principalmente, quem acreditamos ser.

É por isso que determinadas discussões políticas parecem produzir reações tão desproporcionais ao conteúdo objetivo da conversa. Uma frase sobre um candidato pode ser recebida como uma agressão contra a própria pessoa. Uma crítica a uma política pública pode ser interpretada como ataque à família. Uma pergunta sobre determinada crença pode ser entendida como perseguição religiosa. A fronteira entre ideia e identidade desaparece. E quando essa fronteira desaparece, o diálogo fica muito mais difícil e a reação corporal se faz presente.

Não estou dizendo que toda reação corporal diante da política seja irracional ou falsa. Muito pelo contrário. O corpo pode registrar experiências reais e importantes. Mas ele também responde às nossas memórias, associações e interpretações. É por isso que considero tão importante observar não apenas o que pensamos, mas o que acontece conosco enquanto pensamos.

  • O que acontece no seu corpo quando alguém discorda de você?

  • O que acontece quando você ouve o nome de determinado político?

  • O que acontece quando alguém questiona uma crença que você considera fundamental?

  • Você consegue continuar ouvindo? Ou seu corpo já decidiu que aquela pessoa é uma ameaça?

Essas perguntas não pertencem exclusivamente à astrologia. Pertencem à consciência. E é por isso que eu não consiga separar aquilo que observo na política daquilo que estudo sobre o ser humano.

O céu, para mim, sempre foi uma linguagem para observar ciclos e padrões. Mas não acredito que o céu possa substituir a responsabilidade humana. Astrologia não deveria ser utilizada para dizer que determinado político “é destinado” a alguma coisa, nem para transformar configurações planetárias em justificativa para comportamentos políticos. Se utilizo a astrologia para observar o mundo, preciso fazê-lo com humildade suficiente para reconhecer a diferença entre símbolo e evidência.

Estamos entrando novamente em um período eleitoral, e a disputa política tende a intensificar discursos, identidades, medos e promessas. O desafio não é descobrir qual lado grita mais alto. O desafio é perceber o que cada discurso está fazendo conosco.

Então, PENSE: quem nos tornamos quando acreditamos nessa narrativa?

Isso não significa relativizar fatos. Não significa fingir que todas as posições são equivalentes. Não significa abandonar princípios democráticos em nome de uma falsa neutralidade. Significa distinguir entre a crítica firme a uma ideia e a desumanização de quem a sustenta.

Há uma diferença enorme entre dizer “discordo profundamente dessa posição” e dizer “você é meu inimigo”. A primeira frase preserva a possibilidade de debate. A segunda fecha a porta. O maior perigo de uma política transformada em guerra permanente seja justamente esse: depois de algum tempo, já não precisamos de ninguém nos dizendo o que pensar. Aprendemos a reconhecer automaticamente quem pertence ao nosso lado, quais fontes são confiáveis, quais palavras devem provocar indignação e quais pessoas merecem ser ouvidas ou ignoradas.

O contágio já não precisa mais do agente transmissor original. Ele aprendeu a se reproduzir sozinho. E é nesse sentido — e somente nesse sentido — que eu me pergunto se o bolsonarismo pode ser pensado metaforicamente como uma pandemia. Não porque seus apoiadores estejam doentes, mas porque determinados modos de interpretar o mundo podem adquirir uma capacidade de transmissão social que ultrapassa o indivíduo que os formulou.

E se isso é verdade para o bolsonarismo, precisamos ter cuidado para não imaginar que esse mecanismo pertença exclusivamente a ele. Toda sociedade precisa investigar as próprias formas de contágio, as ideias que repetimos sem verificar, os medos que herdamos, os inimigos que aprendemos a odiar, as informações que compartilhamos porque confirmam aquilo que já acreditávamos, as pessoas que deixamos de escutar porque pertencem ao grupo errado e as narrativas que nos oferecem uma explicação confortável demais para um mundo que, na realidade, é muito mais complexo.

Então, vamos olhar para o céu, para a Terra e para nós mesmos com a mesma pergunta que deveria acompanhar qualquer pessoa que deseja compreender o mundo: o que estou vendo — e o que estou projetando sobre aquilo que vejo?

Essa pergunta não resolve a política brasileira, mas talvez ajude a manter aberta uma coisa que nenhuma democracia pode perder: a capacidade de pensar.

Helena Marcondes é astróloga, escritora e pesquisadora, criadora da abordagem Eu Me Quero de Volta e da Teoria Matemática Astrológica. Seu trabalho investiga as relações entre astrologia, consciência, comportamento, símbolos e experiência humana, aproximando o céu daquilo que vivemos na Terra. Em seus textos, Helena transforma experiências, lugares e perguntas em matéria de investigação, buscando compreender o ser humano para além das respostas prontas.

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