Caminhar também é uma forma de pesquisar

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TRILHAS & IGREJASHELENA EXPRESSA → CÉU & TERRA

10/6/20266 min ler

Caminhar também é uma forma de pesquisar

Há uma diferença entre conhecer um lugar e estar, de fato, disponível para percebê-lo. Podemos chegar a uma cidade com seu roteiro cuidadosamente organizado, visitar seus pontos turísticos, fotografar suas igrejas, atravessar suas ruas e voltar para casa com uma coleção inteira de imagens sem necessariamente termos estabelecido qualquer relação mais profunda com aquilo que encontramos. Talvez porque tenhamos aprendido a viajar procurando aquilo que já sabemos que existe. A placa indica o monumento, o mapa indica o caminho, o aplicativo calcula a distância e, de alguma maneira, vamos nos tornando cada vez mais eficientes em chegar aos lugares sem necessariamente deixar que os lugares nos atravessem.

Eu gosto de fazer diferente. Quando caminho por uma trilha, entro em uma igreja antiga ou chego a um lugar que ainda não conheço, procuro primeiro diminuir a velocidade da explicação. Antes de saber o que aquele espaço significa, quero perceber o que ele produz em mim. Como a paisagem se apresenta, onde meus olhos naturalmente pousam, o que chama minha atenção, como meu corpo reage, que lembrança aparece, que sensação permanece quando já estou indo embora. Não considero isso uma substituição da pesquisa histórica, geográfica ou científica; ao contrário, é justamente o que me leva a pesquisar mais. A experiência é o primeiro registro, não necessariamente a conclusão.

Foi assim que comecei a compreender que caminhar também é uma forma de pesquisar.

Existe uma pesquisa que acontece diante de livros, documentos, arquivos e bibliotecas, e existe uma pesquisa que começa quando colocamos o corpo dentro daquilo que queremos compreender. Uma não precisa competir com a outra. Quando caminho por determinado território e depois procuro sua história, descubro que aquilo que senti pode ganhar novos significados à luz do que aconteceu ali. Uma construção que parecia apenas bonita passa a carregar a memória de uma comunidade. Uma igreja que parecia isolada revela relações com a formação daquela cidade. Uma trilha aparentemente natural mostra marcas de antigas ocupações, caminhos de circulação ou transformações da paisagem. O que eu havia percebido não era necessariamente uma explicação; era uma porta de entrada.

Essa é a característica que mais me interessa na pesquisa: permitir que aquilo que encontramos seja maior do que aquilo que imaginávamos encontrar.

Existe uma armadilha muito comum quando observamos o mundo: queremos confirmar rapidamente aquilo que já pensamos sobre ele. Procuramos informações que sustentem nossa primeira impressão, selecionamos aquilo que combina com nossa hipótese e, sem perceber, transformamos pesquisa em confirmação. Caminhar me ensina justamente o contrário. O território tem uma espécie de resistência. Ele não precisa concordar comigo. Posso chegar a um lugar acreditando que vou encontrar determinada coisa e descobrir outra completamente diferente. Posso sentir algo que, depois de pesquisar, não encontra nenhuma correspondência histórica ou objetiva. E isso não invalida necessariamente a experiência; apenas me obriga a separar aquilo que é percepção daquilo que é fato.

Essa distinção é fundamental para qualquer pessoa que pretenda observar o mundo com seriedade. O que eu senti é real enquanto experiência. Mas isso não significa que a minha interpretação daquele sentimento seja automaticamente verdadeira, nessa diferença pode existir uma das formas mais bonitas de amadurecimento: aprender a respeitar aquilo que sentimos sem transformar toda sensação em certeza.

O corpo participa dessa investigação. Antes de formularmos uma explicação, muitas vezes já reagimos a um ambiente. Uma paisagem pode nos tranquilizar ou nos deixar inquietos; um espaço religioso pode produzir recolhimento mesmo em alguém que não professa aquela fé; uma determinada arquitetura pode despertar uma memória que não sabíamos que estava guardada. Não vejo necessidade de transformar imediatamente essas experiências em fenômenos extraordinários. O corpo é, por si só, um instrumento complexo de percepção. Ele registra ritmo, temperatura, sons, cheiros, luminosidade, esforço físico, segurança, estranhamento e familiaridade muito antes de conseguirmos organizar tudo isso em uma narrativa consciente.

É por isso que caminhar pode ser uma experiência tão reveladora.

Quando caminhamos, retiramos por algumas horas a vida do seu ritmo habitual. O corpo passa a participar daquilo que estamos fazendo de uma maneira que o cotidiano urbano frequentemente nos permite esquecer. Sentimos a subida nas pernas, o calor na pele, a mudança da respiração, a necessidade de diminuir o passo. O caminho nos obriga a negociar com os nossos próprios limites. E, talvez por isso, uma trilha possa revelar coisas que uma conversa sentada jamais revelaria.

Há uma espécie de inteligência do movimento. Não uma inteligência mística, necessariamente, mas uma inteligência corporal, concreta, que nasce quando deixamos de observar a vida apenas da cabeça para baixo.

É também por isso que as igrejas ocupam um lugar tão particular nas minhas caminhadas. Uma igreja nunca é apenas um edifício. Mesmo quando retiramos dela a dimensão da fé individual, permanecem arquitetura, história, arte, memória, devoção, poder, comunidade, nascimento, casamento, morte e passagem de gerações. Há lugares religiosos que carregam séculos de presença humana dentro de suas paredes. A pedra envelhece, a pintura muda, a cidade se transforma, mas alguma coisa da memória permanece inscrita naquele espaço.

Entrar em uma igreja histórica, portanto, é entrar também em uma narrativa. E eu gosto de descobrir essa narrativa depois de olhar.

Não quero chegar ao lugar sabendo exatamente o que deveria sentir. Prefiro permitir que a experiência aconteça e, depois, investigar. Quem construiu? Por quê? Em que época? Que acontecimentos atravessaram aquele espaço? Qual era a paisagem ao redor quando aquela igreja foi erguida? O que mudou desde então? Quais símbolos aparecem na arquitetura? Que histórias sobreviveram? Quais desapareceram?

A pesquisa começa a ganhar camadas. E é justamente dessa sobreposição de camadas que nasce aquilo que venho chamando de código dos lugares.

Não penso em código como um segredo oculto, uma fórmula esotérica ou uma espécie de mensagem cifrada que precisaria ser decodificada para revelar uma verdade definitiva. Quando falo em código dos lugares, estou tentando nomear a combinação de elementos que torna determinado território singular: sua geografia, sua história, sua arquitetura, sua memória, as pessoas que passaram por ali, os acontecimentos que ocorreram naquele espaço, os símbolos que foram deixados e, também, a experiência de quem chega hoje.

Um lugar é muito mais do que suas coordenadas. Ele possui uma história anterior à nossa chegada e continuará existindo depois que partirmos. É justamente por isso que me interessa observar também o céu.

A astrologia entra nesse trabalho como uma linguagem simbólica para investigar a relação entre tempo, território e experiência. Não como uma maneira de substituir os fatos, tampouco como uma tentativa de provar que cada acontecimento possui uma causa astrológica. O que me interessa é observar. Registrar data, horário e local. Conhecer o contexto. Pesquisar o que aconteceu. E então olhar para o céu daquele momento como mais uma camada possível de leitura.

É uma postura muito diferente daquela que parte de uma conclusão e procura no céu uma confirmação. Prefiro a pergunta, porque uma pergunta permanece viva por mais tempo do que uma resposta.

Foi assim que Trilhas & Igrejas começou a fazer sentido dentro do meu trabalho. Não como uma coleção de passeios ou recomendações turísticas, mas como um espaço de observação. Quero registrar lugares que me provocaram alguma coisa e, a partir deles, investigar o que existe entre a experiência pessoal e a história concreta. Algumas vezes encontrarei uma resposta. Outras vezes encontrarei novas perguntas. E haverá situações em que a melhor conclusão será admitir que ainda não sei.

Para mim, isso não diminui a pesquisa. Vivemos em uma época que tem uma resposta para tudo. O algoritmo sabe onde devemos ir, o que devemos comprar, o que devemos pensar, quais lugares são imperdíveis e até quais experiências deveriam nos transformar. Existe uma pressa enorme para transformar qualquer vivência em conteúdo e qualquer lugar em cenário. Às vezes tenho a impressão de que estamos tão preocupados em registrar aquilo que vivemos que esquecemos de viver aquilo que estamos registrando.

Caminhar é uma pequena rebeldia contra essa velocidade.

Não porque seja preciso abandonar a tecnologia ou romantizar uma vida fora do mundo contemporâneo, mas porque o corpo possui outro tempo. A montanha não sobe mais rápido porque estamos com pressa. A igreja não conta sua história em quinze segundos. Uma paisagem não se torna mais profunda porque recebeu um filtro. E algumas coisas só aparecem quando permanecemos tempo suficiente diante delas.

E isso tem uma relação profunda com a maneira como compreendo também o autoconhecimento. Nós gostaríamos de encontrar rapidamente uma explicação para nós mesmos, assim como gostaríamos de encontrar rapidamente o significado de um lugar. Mas pessoas, como territórios, são feitas de camadas. Há aquilo que aparece primeiro, aquilo que descobrimos depois e aquilo que talvez

Helena Marcondes é astróloga, escritora e pesquisadora, criadora da abordagem Eu Me Quero de Volta e da Teoria Matemática Astrológica. Seu trabalho investiga as relações entre astrologia, consciência, comportamento, símbolos e experiência humana, aproximando o céu daquilo que vivemos na Terra. Em seus textos, Helena transforma experiências, lugares e perguntas em matéria de investigação, buscando compreender o ser humano para além das respostas prontas.

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